vives nas esquinas do meu pensamento

26/05/06

Desabafo I


Chove insistentemente e eu busco um porto seguro...meu lar já não me acolhe...quero fugir daqui desse ar que hoje me sufoca...sonho inquieto e eu me desespero e ardo em desejos que já não me cabem. A cidade me aprisiona e eu em corpo descoberto me sinto fraca quando ando entre veredas. Alguem precisa me tirar daqui.Ou algo aconteça ...rápido que me permita nem pensar e eu possa decidir num abrir de olhos. Seja a noite ou de dia que venha um milagre para eu não sucumbir. Que minha inspiração não me falte e eu não me faça refém. Que a dor da saudade se esvaia e me deixe viver solta entre minhas palavras e não me impeça de criar . Minha voz agora tão rouca quer gritar sem hesitação por deuses que transponham minha existência e que me invada a realidade. As canções, companheiras da criação, me apontam os passos que darei para curar-me da dor de estar ausente da realidade mentirosa em que vivo. Faço dos meus pensamentos rios de correntes fortes pra não enxergar o que todos querem que eu enxergue. Sou dona de mim, de minha realidade e nada me mudará. Não troco a minha realidade pela mediocridade dos seres que perambulam pela vida vazia. Sou sim....verdade...unica...milagre...morrendo dentro da saudade ....ainda assim busco meu porto seguro e cada ponte que eu atravessar trará o futuro do meu presente desejado. Sou o papel principal do vazio, do caos, do tudo do nada, do que é , do que será ...do que está por vir. Quietude de um dia que vive na noite de minhas ilusões. Doce minha esperança de que vou chegar, vou encontar, vou entender....minha percepção me indica mudanças. Quero dizer tudo que sinto sem ser calada...não me privarei de escrever minha revolta por um mundo insano e sem sentido. Tenho de buscar a essência dentro de mim. A essêencia não contaminda . Sou o que há de melhor e real...me recuso a deixar essa apatia me dominar os nervos e a emoção...razão é minha representação...escrevo e escuto canções sem pensar muito no que estou descrevendo...como exercício de apenas teclar ...invadida de uma onda de inspiração....a chuva da noite atravessa minha janela e molha minha sombra deitada ao lado, não me espanta o céu escuro de nuvens e o ruído da chuva se mistura ao som da voz feminina nos meus ouvidos. Minha infância relembrada hoje , quando de dentro do ônibus eu olhava pra cidade molhada da chuva forte...lembranças dos meu sonhos pueris que fui buscar para afinal ver o final que darei ao papel de minha vida.Nasci junto com uma onda de vento trazida pra essas bandas porque aqui vim buscar o reflexo do meu chão ... é nesse barco que navego minhas reflexões e vejo no horizonte acenos dos dias e das cores dos céus que estão a me sorri. Bandeiras e lágrimas deixadas de lado...minha terra escolhida não é aqui, esta lá adiante onde vou levar meu corpo numa dança exótica.Quero mudar minha realidade pra atravessar o oceano em busca do amor, do trabalho, da descoberta, me dar para entender o que vim fazer aqui...é lá ... atrás da costa que está minha verdade, e tenho tanta certeza que me sinto lá como se bailasse num mar de realizações e sinto a viver duplamente. O que tem dentro de mim vive e sonha ao mesmo tempo sem limites. Não controlo o desejo e sei que estou no lugar errado agora. La do outro lado está meu lar, meu porto, minha ponte, o meu acalanto e minha identificação. Como custo a entender que sou capaz e que posso ir. Temo não poder... não conseguir. Não me acho capaz embora saiba que só sou. Preciso quebrar essas correntes me libertar e não temer entregar ao mundo o que sou. Fazer minha poesia, descrever minhas impressões porque o farei para os que virão e não para os que estão aqui....posso e devo ...não hesitar.Há tanto para contar e dizer e se não fizer é porque já não sei quem sou e eu sei. E sei que sei. Me ronda a vontade ...a criação e temo dizer o que penso quando não deveria. Não preciso saber como os outros sabem, o que preciso é saber que quero dizer. É sentar e dizer , dispor das palavras que fiz minhas por propriedade e domínio. Tudo na minha volta faz um sentido e a marca é a teimosia de querer ser. Não há parede que eu não possa atravessar ...rio que não possa transpor ...céus que não possa conquistar ...dor que não possa sentir e alegria que não saiba onde buscar. Quero tão somente me expor ...sem julgamentos e sem culpas ...encarar que quero ir embora pra onde acredito ser meu lugar. Ir. Não voltar e encontrar raízes. Minha poesia é tão profunda, é tão verdadeira e diz tanto de mim, pois que ninguém me julgue...apenas estou aqui pra fazer isso. Sem cansaço ..pois minha poesia é pra sair das gavetas e resgatar os ideais de criança, de falar sobre o amor , as verdades, os sonhos ternos e... enfim, a busca das respostas porque vim e o que devo fazer. Não quero mais me esconder e desaparecer sendo apenas mais um sem rumo. Quero minha rota porque sei que posso determiná-la e encontrá-la ...não abandonar meus desejos de dizer o que penso, o que quero, o que sei. Que me ouçam os que quiserem e leiam os que acharem importante.

Faz frio


Faz frio. Sinto saudades. A música companheira sempre acompanha os momentos de tanto desabafo. Escrever para esvaziar vocábulos que se embaralham na minha mente. O dia hoje todo escuro e a vontade de não sair de casa e me deixar envolvida nas cobertas ou nas palavras escritas. Saudade senti de coisas que já ora indentifico e ora não sei os significados.É tanta vontade de dizer, tantos sentir...que por vezes preciso de algo a me inspirar me fazer realizar parecido como sons limpos do silêncio e a música é meu recanto de silêncio porque não escuto nada mais. Só ela a me penetrar pelos ouvidos e corpo me ajudam a expressar o que sinto. Um rugir de mistérios...contar verdades..abrir o coração. Por isso desejei ficar em casa, recanto meu, para doar entre sorrisos meu tempo ao silencio da musica que toca e quero ouvir sempre. Assim com ela arrancaria as palavras escondidas pra citar minhas saudades. Saudades de tempos que não foram porque povoam minhas lembranças com um olvidar insistente. Seduzida sou por falar, dizer , dos momentos que vagam soltos e livres dentro de mim, onde não censuro todas as manifestações porque me acodem quando me vejo diante do vazio. E quero entender o tempo e como ele corre sempre a meu favor ...me ensinando junto com o som das canções tudo que quero aprender . E tudo que sinto dizer repetidas vezes. O debruçar sobre a minha razão por vezes tão questionada...até onde minha verdade é verdade...Mas a noite caiu e o frio se tornou intenso e agora a dor da saudade quer aliviar-me para que possa seguir sem perdas. Na busca de um equilibrio por conclusões a que preciso chegar. As vezes são difíceis as situações em que nos colocamos e precisamos dizer palavras duras que diríamos até pra nós mesmo. E não pensar que trata-se de ser tão duro constantemente é que por vezes muitas coisas nos escapam e principalmente quando o que imagino está ainda no futuro. Assim hoje estou...meio perdida, confusos pensares...Como que percebendo que se avizinha algo maior por vir. Um dia triste, recoberto de saudades , pode parecer estar numa rua sem esquina para que se pudesse encostar e apreciar os acontecimentos a frente sem envolver-se. Por vezes parece impossível reter um instante de equilibrio. Por isso o dia deveria ter sido mais doce...para meu coração se sentir acalantado. Mil dias doces quero ter para que minhas reflexões se equilibrem e não pareçam estar numa corda bamba...num fio erguido no alto onde o nada o sustente abaixo. Essa sensação de um vazio junto ao pressentimento de um não sei quê que desejo ardentemente começe a acontecer, me tira o sono ...a disposição...mas embalada nas palavras que insistem em não querem envelhecer eu não sucumbo. O frio atravessa minha vida agora, posto que estou próxima da janela entreaberta e minha respiração gelada me desperta e me promete trilhas cheias de possibilidades. A escolha , meu tema predileto, para encarar a minha insustentável leveja de precisar ser. Voltar a escrever é como estar de novo no tapete macio de onde percebo o controle do meu rumo. E essa viagem...decorrer tudo sem limites...sem barreiras.

24/05/06

ERY


"Perdi meu pai... o ancoradouro onde eu amarrava a corda da minha vida. 05 de outubro, 2006... eu vesti o corpo dele já sem vida dentro da funerária do hospital... Eram quase 23 horas e o recebi envolto em um lençol branco. Frio porque acabara de sair da UTI. Não havia pensamentos na minha cabeça naquele momento, parecia um sonho desses que agente só tem vontade de acordar. Eu ainda não sabia que sabia o que tinha de fazer. Abri o lençol a altura do seu peito e o desnudei , envolvi entre meus dedos o meu terço, que usava para minhas orações , embora não seja católica - e segurando -o, depositei minha mão levemente sobre o peito que tantas e inúmeras vezes acolheu meus choros e minhas alegrias e ali fiz uma oração e conversei com meu pai sobre aquele momento...o que estava acontecendo e o que ele teria de fazer para que sua alma atormentada pelos dias de sofrimento dentro do hospital pudesse entender ...o desfecho...a morte ...a hora de ir ...de nos deixar e deixar um mundo que ele tanto amou e vivera setenta e oito anos de sua tumultuada e árdua vida".


Não sei onde pude encontrar forças para fazer o que fiz, dizer a meu pai que agora ele não estaria mais conosco, que ele teria de ir e deixar tudo para trás.. esquecer temporariamente a juventude, os filhos, os sonhos não realizados, as conquistas não tão desejadas, os momentos de felicidade ímpar, o que construiu ...deixar suas sementes ...seus frutos ...a doce e encantadora vivência que no fundo todos carregamos como sentimento pela vida, seja ela boa ou ruim, mesmo dependendo dos vários ângulos que possamos olha-la. Não sei como consegui erguer-me do banco de madeira do jardim e ter meu pai sem vida nos meus braços e dar-lhe um rumo...ser sua bússola...indicar o caminho...dizer-lhe que não se assustasse, seguisse em frente e tivesse o coração puro de dores e ódios ....que rezasse suas fervorosas orações e pensasse em Deus e em ir até o seu encontro envolto em paz, com o coração cheio de amor. Só assim sua passagem seria menos dolorosa. Não sei como consegui , naquele noite não desmoronar ao receber meu pai sem vida envolto num lençol branco. Só sei que uma dor me invadia porque percebia que um pedaço de mim estava sendo arrancado à força, extirpado. Quase podia ver a figura do algoz decepando-me a melhor parte ... ali jazia deitado numa pedra lisa, frio e sem vida. Ali estava meu pedaço melhor...aquilo tudo que eu não sabia que era ...porque eu não soube quem era até o dia que perdi meu pai...meu melhor pedaço...o melhor de mim. Não sabia com certeza onde eu estava. O mundo literalmente parou enquanto eu estava ali de pé ao seu lado com a mão sobre seu peito lhe dizendo tudo que eu somente eu poderia, naquele momento...A dor era tão lancinante que eu não conseguia ouvir o mundo girar ...tudo estava tão quieto e a sala era tão grande que eu não conseguia me mover. Um misto de dor e de impotência me acometia porque tudo que eu queria era acordá-lo e dizer-lhe que não era à hora...eu não estava preparada para me despedir. Mas eu não conseguia dizer-lhe isso porque havia o rumo ...eu tinha de apontá-lo , ele precisava mais disso do que de qualquer outra coisa...eu não disse que o amava porque isso ele sempre soube ...isso ele já ouvira tantas vezes...e com certeza absoluta sempre soube. Sentia-me em pedaços perdidos dentro daquela sala tentando mostrar ao meu pai o caminho a seguir...e tantas vezes roguei pra que eu tivesse a oportunidade de estar nesse momento, se caso acontecesse.
A noite era tão escura que mil luzes não conseguiriam iluminar o corpo do meu pai quando o coloquei dentro do caixão....o mundo girava ao contrário, não havia sonhos, não havia espaço ...só uma dor que me fazia perder a certeza de estar ali. Ali me despedi dele porque eu não tinha mais forças pra continuar....Eu não era mais nada quando vi meu pai se afastar dentro daquele carro para sempre.

Eu era agora apenas ALGUEM TÃO SÓ QUE NADA NO MUNDO ME PRENCHERIA NOVAMENTE. NÃO SEI COMO FUI PRA CASA... ERA UM FIM SEM PRECEDENTES. VI DEUS DIANTE DE MIM, NAQUELA NOITE, E LHE SUPLIQUEI QUE AQUELA DOR PARASSE E QUE O DIA ACORDASSE PRA QUE EU VOLTASSE A VIDA - PORQUE EU NÃO TINHA MAIS A VIDA DENTRO DE MIM. ME SINTIA COMO UM BARCO A DERIVA COM A CERTEZA QUE CAMINHO NEM TRILHA PUDESSE EXISTIR. A NOITE NÃO PASSOU E O DIA SEGUINTE VIVI O DIA DENTRO DAQUELA NOITE E DENTRO DELA AINDA ME SINTO...não consigo sair...não consigo encontrar a porta pra abri-la. E me senti só como nunca me senti e nunca imaginei que seria capaz de experimentar...me senti sem proteção...sem paz...sem cura para qualquer mal...Me despedacei tanto que ainda nem imagino o que perdi. Não enterrei meu pai...não conseguiria... pela primeira e única vez na minha vida não consegui dar um passo a frente...não conseguiria chegar lá, não poderia, andei perdida pelas ruas da cidade em delírios e confusos pensamentos em busca de alguém ou algo que me desse a resposta.

Naquele momento nada no mundo foi capaz de me apontar o que fazer. Ainda agora posso sentir no estomago a mesma dor que senti naquele dia e que durou semanas pra me abandonar. E choro um pranto não de tristeza, mas de uma imensa saudade que não passa. Queria me sentir consolada, por um momento sequer, mas não encontro nada que me faça acontecer. E guardei, guardei por um tempo infinito o pranto que hoje corre por entre meu rosto...o pranto de uma saudade sem remédio e sem cura. A saudade do homem, o primeiro, o único e o último que amei por toda a vida...É inenarrável a sensação que me atravessa...o desejo de vê-lo , de tocá-lo , de ouvir sua voz e seu riso de novo. A sensação de ter ficado devendo algo ...algo que não foi dito - e muitas palavras tocamos por todos esses anos - algo que não foi feito - e muito fizemos juntos ou quando estávamos separados -, um toque que não foi dado - embora nos tocássemos por todo o tempo........ e tantos foram os beijos os abraços e quando eu o tinha nos braços eu me sentia tão feliz e tão segura que o mundo me pertencia e nele eu me sentia a vontade e hoje esse mesmo mundo me parece tão somente muito estranho; a sensação de uma bebida que não foi bebida, de uma aceno que não foi dado, de uma noite que não foi compartida, de uma música que não escutamos, de uma confissão que não fiz. Mas não me lembro, porque vivi intensamente com meu pai tudo que podia de bom e ruim, difícil e fácil, doce e amargo, de surpresas e decepções, de proteção e abandono. E é assim que se vive...

E assim vivemos intensamente como seres que vieram se encontrar para juntos resgatar vidas de um passado que fora daqui sempre é tão breve. Ele foi sabendo que me deixara aqui quase sem vida... e por isso voltou para docemente nos meus sonhos me contar o que ocorreu. Assim me dar o consolo que eu tanto necessitara. E assim só depois disso... quando tive a certeza de que a morte é uma passagem para algo maior é que comecei a enxergar novamente. Ele sabia que precisaria voltar pra me contar o que contou e que isso poria fim na dor, permitindo só a saudade. Hoje o vento que sopra em mim sempre vem acompanhado de um cheiro...o cheiro de minha infância cheia de mistérios e descobertas e em cada lembrança lá está ele com seu olhar quieto e sua mão num gesto sempre peculiar...ele falava com os olhos, falava com as mãos , e sua voz estava escondida quando era hora de brigar ....mas se soltava quando decorria sobre as coisas da vida...As marcantes noites de sábado, numa época em que nos mulheres adolescentes sentem-se melhores ao lado dos pais, eles são sempre mais seguros - , heróis, com quem contamos, sábios que nos ensinam...Tive em meu pai momentos de muita cumplicidade e mesmo quando pra ele era difícil enfrentar seu corpo estava presente...Ele nos protegia escondendo o mundo real e nos discorrendo sobre o passado como se assim nós protegesse de dores que não eram necessárias às crianças sentirem antes do tempo.
ASSIM ERA MEU PAI UM DOCE SONHADOR... QUE ABRIU MÃO DA CORAGEM PARA SE MANTER VIVO. Percebeu cedo que há muitas formas de se amar e proteger e elas não precisam ser necessariamente iguais às do vizinho. Agora, mais do que sempre eu entendo o que ele percebia da vida. E assim aprendo a viver com o seu amor ausente. Mas daria tudo que tenho para tê-lo de novo ao meu lado. E se não posso mantenho viva as doces lembranças dos dias que a sua presença era verdadeira. E cada passo meu hoje é dado na doçura dessas lembranças o que torna meus dias leves, as noites aceitáveis, o mundo mais claro, a vida mais certa e a morte o acontecimento que será exatamente como desejarmos que seja. Ele veio e trouxe coragem para eu enfrentar as quedas ou resistir e me erguer. Não acabou. Ele não me abandonou. E é por isso que estou voltando a viver. Porque acordo todos os dias de minha vida com a paz do amor de meu pai povoando meu coração, minha mente.
O amor de meu pai é o vento que sopra todos os dias nos caminhos da minha vida.
20/21 DE MAIO DE 2006
della-porther