vives nas esquinas do meu pensamento

30/05/07

Desabafo XVIII - Ensaio da Amizade

ERY
Edson Bastos Barretto, meu pai aos 21 anos

Ensaio da amizade

Para nos conhecer é necessário ver-nos em um amigo. O amigo é nosso outro eu. Há amigos cujas almas se misturam e se confundem tanto com as nossas, e tanto que quando nos damos conta não conseguimos encontrar mais a costura que as juntou. A amizade é virtude ou implica em virtude, disse Montaigne. Por vezes certos amigos nos estendem tanto a sua amizade que desafia a moderação, transcende o amor de tal forma que nos parece que esse amor sempre esteve conosco. É tamanha a fusão que por vezes, carregam, facilmente consigo nossas dores, nossos sentimentos de tristeza, nossos temores. E de repente nada mais é seu ou meu. Vontades se misturam, toques reúnen-se, não há mais distinções.Laços diversos atam-nos para sempre. E a amizade torna-se união perfeita, sem fissuras, sem brechas, sustentáveis por si só. A amizade é mesmo um mistério. Como pensar que é possível uma ligação assim, perfeita e completa, quando vivemos num mundo transitório e passageiro, um mundo de movimento e finitude? Cabe, nesse mundo coincidência tão absoluta de uma identificação tão plena? Cabe. Misteriosamente cabe.Posto que a amizade é o mais belo lugar e meio. A amizade é uma aliança, uma sociedade que fazemos pura e simplesmente por escolha e vontade própria, onde não rivalizamos, não dispersamos. Buscamos o prazer pelo significativo prazer de ser e ter amigos. A semelhança da afinidade, convivência forte das coisas, identidade abençoada pelo Cosmos. Tornamo-nos o princípio e o gênero de todas as espécies quando buscamos o amigo, nosso parente espiritual. O consolidamos como vínculo de sangue. E damos qualidade e forma a esse convívio intenso e marcado para sempre em nossas vidas. Queremos o amigo por ele mesmo, por ele ser quem é e o que é.
Assim é o amor e a amizade que me une a meu pai. Porque procedendo dele sou o seu outro, o outro ele mesmo. Só por isso pude descobrir quem eu era no dia que perdi meu pai. Ao ve-lo, sem vida entendi quem eu era. Aquele momento foi de mudança e movimento. Percebi a multiplicidade tênue e inconstante da própria vida, no meu espaço e no meu tempo. Percebi a existência a que desejava pra mim. Meu pai, ali naquele intante fora o espelho onde identifiquei-me. Nítido me fez acordar de um tempo em que mantive-me adormecida. Um tempo que não sei contar porque fora muito tempo. E senti, cruelmente o momento - esse que deparei-me privada do amigo mais caro e mais íntimo. Aquele do laço consaguíneo, aquele da costura sem emendas, transcedente, sem fissuras e brechas, o amigo perfeito e completo. Esse amigo que olhei para nele reconhecer-me. Alcancei minha solda fraterna. Clarificados tornaram-se dali por diante meus conflitos, meus laços, minhas experiências. Minha imagem agora sustentava-se, sustenta-se de tal forma que a leveza vive a me rondar, posto que, saber-se torna tudo tão mais original, compreensível e sólido, tal qual a solidez de ter sido forjada dentro do corpo forte de meu pai.O medo perde a importância, a obediência tem outro valor, o redor que temporariamente me pareceu estranho, retorna familiarmente em seu momento original. A cidade que naqueles dias era tão fria e distante, tão cinza, reencontra-se comigo trazendo uma infinita paz com seus coloridos e seus ruídos de amanhecer. Perdi a ingenuidade e me sinto melhor. Entendi que a vida não precisa ser entendida, precisa ser apreciada e aceita. Entretanto, ao perceber quem sou, a inquietude terminou; aprendi o que é separação, vida; aprendi que preciso aprender a viver e sobretudo a morrer. Porque agora sei para onde encaminha-se o meu conhecimento, os meus desejos, o meu mistério. Assim tornei-me diferente para ser exatamente como me sinto, dentro de mim: igual. Tornei-me mais tolerante, mais generosa, cuidadosa com a razão e a emoção. Vivo um dia por vez, um dia a cada dia, conhecendo o elemento singular do que é viver, existencialmente. Hoje, exatamente, dedico boa parte dos meus dias a escrever, para consagrar também a lembrança, a lembrança de um mútuo amor, um amor amigo, em nome desse laço que aponta-me a verdade e a vontade determinada, que aponta-me uma incrível força. Força que transporta-me para além de tudo que eu possa dizer e ser.
papai, com amor della-porther

13/05/07

Batalha dos Tempos - Poema XVIII


liberto meus instintos
sinto-me Eros
como essência de ser
meu amor é
expressão abstrata
sobrevivência concreta
equilibrio de desejo e ser
prazer e realidade
uma luta travada
para não ser passado perdido
presente sem significado
futuro esquecido
sou fronteira
desse amor que arde dentro de mim
e se realiza até na consciência
do seu existir.
foto Luís Louro



Sarah Mclachan - Angel

06/05/07

Batalha dos Tempos Poema XVII - Silêncio


meu silêncio
um impasse
entre dois amores
um erótico e libertário
o outro tímido e incendiário
um para além do bem
o outro para aquém do mal
um transcedência
o outro soberania
ambos
me constroe
me desconstroe
prendem-me na vida
libertam-me na morte
um amor em tal desordem
que guarda silêncio
em mim mesma.

Foto de Raul Coelho



Jennifer Lopez - Should've Never

** voltei, porque um amigo me pediu.