vives nas esquinas do meu pensamento

22/01/09

Batalha dos Tempos XXIX - dos dias de você


É o convencimento absurdo que me faz imaginar os dias, os dias de você. Me enamorei por um carinho que deitou sob a tempestade gritando: é milagre! É milagre!. Que sei eu de milagres, Ora. Sei dos dias de você. Aqueles que fazem a sombra onde não é possível; aqueles que fazem as ondas do mar... tragar o vento e aprisioná-lo envolvendo-o em suas paredes de água derramada. Sim. Hoje. Hoje é um dia que faz eu me sentir deitado na beira de um rio para ouvir conversas de águas. Na brilhante luz da lua me sinto ser. Como nunca foi possível acreditar.
FOI ASSIM QUE TUDO COMEÇOU...
O despertar daí em diante mudou. Adquiriu um tom violeta , um quase lilás , e passou a ser o acordar.Assim, dia após dia, venho alimentando o melhor de mim. Andava faminto de querer bem e a sentir inveja por ainda não amar. Foi assim que comecei a perceber os dias de você. Leves ainda quando em suas estradas traziam grandes turbulências, às más notícias. Ainda assim cercou-me de leveza para enfrentar as irracionais discussões. Mas daquele momento nunca mais as coisas seriam iguais, porque a partir dali tudo perderia o seu sentido e modificaria seus significados. Esse lado , agora, aponta um entendimento muito maior sobre esses tantos segredos da vida que vivemos. Vivencia um amar, carinhosamente correspondido, sob as sutilezas do avanço racional. Imagina.
Delira. Acomoda. Excita. Livre se dá.
Qual experiência pode dar noção aos signos mais intensa do que essa?. Amar como se fosse o último momento, como se fosse um meio-termo, como o início inesperado de uma profunda mudança no viver. Poder dizer: alguém que nem sei quem ama-me. Por amor deseja-se o até indesejável. Pois se assim não fosse não seria amar, essa capacidade única de querer pertencer e ser de um alguém.
A essência disso tudo? Você nas minhas cercanias, você e esse cheiro de relva que não saí de meus dedos, você e seus suspiros sensuais, sua beleza amadurecida, você e suas mãos de dedos longos, macios, você uma temperatura certa, uma água que preciso provar.
*
*
*
Foto de Paulo Pinto

30/07/08

Batalha dos Tempos XVIII - Deserta Solidão


a solidão macia me rondando
em lugares estranhos a quero deixar
só a quero no mar
lá onde o amor pode se mostrar
pode ser face, verdadeira
ouvir o vento falar
sentir a maresia, o cheiro da vida
é lá que deixo a solidão me tomar
minhas palavras na dança da maré
minha memória
o sempre sonho da mulher
aquela que quero amar
na deserta solidão que me permito
viver no vento do mar.
Foto de Olga

09/07/08

Desabafos XXVIII - O conflito do amor



O amor é um conflito
não.não falo do amor poema
do amor poesia...
falo de outro,
o amor que não se desmancha na areia
o amor que faz lençóis na cama
o amor que grita
não vive sufocado -
o amor da beira
do canto, do lado,
do dentro,
profundo
o amor que saneia
que recorda e faz porque recorda
o amor "desvendador" dos enigmas

o amor é um conflito
teima em se desprender

E só assim ser o amor.
Foto de gaba

26/06/08

Desabafos XXVII - Andarilho



Onde posso me refugiar
para sentir mais de perto
os odores do inverno
o peso da gota de chuva
a capacidade do vento levar
uma folha no chão
um rastro na areia
uma raiz partida ?
é nas sombras da natureza
onde escondo meus tristes sentires
a honra ferida
a tristeza recusada
nos caminhos que escolhi
a natureza me acolhe
sou seu andarilho
duelo com a dor e as feridas
restaurando meu viver
num diálogo mágico
nas sombras, para sobreviver.
Foto de grendel

Desabafos XXVI - Seja o desejo




Sinto os dias vagos
Desejo de desejar o outro
Esse objeto de ser desejado
Converter em amante a coisa mais amada
Obscuro objeto do desejo
Laços que prendem à realidade
Que quisera diferente
Descalça, deixar morrer ou germinar
O desejo pelo simples desejo
De amar em imensa solidão
Não cessar de repor desejos
A luta mortal da consciência
A busca incessante da perda
O objeto proibido
Um desejo que na verdade
Não devo sentir.
Foto de Lauren Simonutti

23/06/08

Desabafo XXV - Amor Sobrevivente




Meu amor apaixonado
sua sensualidade idealizada
colide violentamente com uma
cumplicidade amorosa, a que perdi
escurecido os dias
exposta a realidade
perdi a vontade de continuar
desapareceu, está fora do tempo
meu amor apaixonado
de plena compreensão real
caiu em si, a linha se rompeu
ora assemelha-se estranhamente a um tão-distante tempo
não o encontro mais
aqui, ao meu lado
hoje, num lençol ausente de seu cheiro
vivo, no roçar de um corpo,
um sexo de contornos impreciso
mas, necessário à minha sobrevivência.

Foto de Carlor

06/04/08

Poema Batalha dos Tempos XXVII - Na esquina, você


na esquina
encontro teu rosto escondido
sei que esperas
sei que me esperas
porque eu sou de ti
amor que vem das altas montanhas
em terras cujo chão
são ainda estrangeiros
na esquina, seu rosto está
meu amor - paixão que não esqueci
dias para viver
nas cores fortes do mundo,
ainda.
*
...te quero mais do que poderia
mais do que deveria...
*
*
Foto de jmrufian

30/03/08

Desabafo XXIV - Húmus




inspiração és o gráfico de minha intimidade
eficientemente numa espécie de símbolo
contundente na obra que faço
ninguém a guardará
serão ruas de uma vida, apenas
minha, meu combate intelectual
para não dispersar as palavras
digo-as para ti,
minha arte e minha ordem
assim, quem sabe
permanecerão vivas
não secas
mas o húmus no prazer
de ter vindo e ter vivido
uma opção
uma paixão
uma folha perdida.
Foto de madalenap

26/03/08

Batalha dos Tempos Poema XXVI - Não me despeço






não me despeço
não darei adeus
continuo minha busca
afastando as solidões do mundo
tenho data marcada
meu amor navega ao meu lado
seu jeito quieto
é o vento de minha
terra estranha
continuo minha busca
não me despeço
não darei adeus

Foto de baju

04/11/07

um sonho, um lugar



hoje estiveste nos meus sonhos

uma dor a se misturar a um prazer

uma sede que não consegui saciar

águas turvas, cor e movimento

na fragilidade do lugar

minhas mãos querendo as águas turvas dominar

meu sonho não acredita que sofres

tantos são os prazeres e os movimentos

mas ao fim eu estava só.

Foto de Pedro Moreira

01/11/07

Desabafo XXIV - O sonho real


És capaz de curar-me com um toque.Vieste em sonho provar-me. Era noite e guerreava por seu amor. Queria mantê-lo, juntamente com minha alegria de tê-lo. Erámos tão poucos contra a força do mal. Não tive medo o enfrentei por ti. A morte nos rondou e fomos mais forte, a espada firme e brilhante decepou o mal. Cheguei a tempo de erguê-la. Minhas roupas manchadas de um sangue real, meu corpo machucado sabia a certeza do perdão. Arrastada fui por sobre os ombros do homem nobre que ali a agonizar não me deixaria...era íngrime a subida, era escura a noite, aterradora. Coberta de sombras e trevas, pois dizia ela que o amor era maldito. Não era crível. Lutamos por isso. Acreditavámos. Queriamos você e por você um mar de sangue derramaríamos. O amor que defendíamos era o amor de um novo tempo. O tempo do sol. Da luz forte que não podia nos cegar , só iluminar. Chegamos ao quarto escuro. Onde tudo era cinza demais. A dor lancinante sabia eu: seu tempo era finito.
Deitada nela, coberta de sangue, não conseguia chorar. Salvei o homem nobre. Matara a mulher mau. Agora podia fenecer e iria feliz. A cama grande era tão escura como o dia que não tinha acontecido. As trevas percebiam seu fim.
Ele a chamou. Delicadamente vieste , saindo do nada para se juntar a nós. Sua força traria a luz que precisava para viver e para que todos pudessem ser felizes de novo.
Sua mão suave tocou-me o ombro dorido. Ele também o fez. Lado a lado o amor ressucitaria-me . O amor real num tempo remoto que quase não posso lembrar. Tanta era a dor, mais forte era a alegria de ali estar. Pediu-me que minha alma se elevasse para meu corpo curares. Assim a noite tenebrosa, de trevas e horror, de morte e sem perdão, fez-se dia com a luz do sol e tudo foi clareando e eu ali de pé diante de mim vendo o milagre do amor, amor de tempos vividos, surgir com força. E tudo ficou iluminado e tudo tornou-se branco tal a pureza do amor do homem real pela mulher cujo toque era capaz de curar. O sol nasceu pela primeira vez, há muito que não o víamos . E me chamaste a voltar ao corpo agora refeito. Voltei e ali, no mágico momento senti-me numa realidade que não vai acontecer. É vida passada, tempo vivido que retorna em sonhos para não nos fazer esquecer a vida que embalamos conjuntamente. Erguida da cama branca agora, sentindo a paz que nos ciurcundava vi felicidade no seu olhar, prazer nos olhos do homem real que acreditava. Começamos a caminhar e a descer a íngreme escada agora tão cheia de flores e cujo aroma embriagava-nos....
As crianças correram até nós. Cada uma aos nossos braços, três eram elas: dois meninos e uma menina. E caminhando tive a certeza de dias melhores. Por um momento aquele sonho fôra a minha realidade.

24/10/07

Batalha dos Tempos Poema XXV Óphis*


seu olhar atravessa
minhas palavras
palavras tímidas quase mudas
não sei explicar
a aparência do visto
do sentido
que seu olhar me dá
ora é espelho
noutra reflexo
abriga-me e fico a contemplar
será esse o olhar que
dentro de mim manifesta iluminar
não sei, palavras tolas
não fazem jus ao seu olhar
é fantástico
é fantasia
é fantasma
essa luz cinza,verde,azul
que vem do castanho do seu olhar
minha cela
meu lugar
brilhante a me cegar
esse seu olhar que me atravessa
ávido desnudou minhas palavras.
Fotografia Rafael Mota
*Óphis é a ação de ver.

17/10/07

Desabafo XXIII - Em preto e branco



rasgo a vida em preto e branco
quero ser parte dos que vêem
não terei a cegueira
não serei condenada a imobilidade
rasgo a vida em preto e branco
quero olhar pra fora e além de fora
não sentirei a melancolia
sou indivíduo vísivel
rasgo a vida em preto e branco
conheço a claridade
que o mundo das coisas dá
sou a lucidez
sei arrancar de mim a visão
sou consciência verídica
porque rasgo a vida
em preto e branco
sou risco sem medo de arriscar.

foto de Kovu




Brad Mehldau - Exit Music (for a Film)



08/10/07

Desabafo XXII - O rumo


sou barco sem laços e sem destino
numa infinita água salgada me levando
sou ser em desejo
me ocultando do viver
quero me deixar no mar
não prolongar a partida
enfraquecidas as forças
me abandono no rumo da água
dos outros e às coisas
pois isso é minha libertação
saber porque desejo
é o que me corta do mundo e
me separa do existir
sou barco
barco sem laços
barco sem destino
incapaz de ficar
incapaz de voltar.
foto de makgobokgobo

07/10/07

Desabafo XXI - Falta de alma


estou perdendo minh'alma
a alma do meu pensamento
já perdi a alma do meu corpo
não consigo ter sentimentos
inesperado comportamento
que vai de encontro
estou perdendo a união corpo-alma
é tanta a falta
é tão imensa a falta
que tanto sobra
são forças externas
vencendo-me
nos meus pensamentos
sugando minh'alma
sinto-me desértica
isolada
morrendo de várias maneiras
pensamento sem alma
corpo sem alma
nenhuma água pode juntar
alma e afeto que em mim
não quer mais habitar.
foto de bdinphoenix

Desabafo XX - Não sei se sou


só tenho agora aquilo o que sou
e nem mesmo sei o que sou
mas tenho algo
que escuto no meu silêncio particular
desorganizado e místico
sou o que vejo
as vezes pareço lama úmida
as vezes sou muro de pedra
ritualmente consumida
vago em noites de orgia
para encontrar quem sou
sono acordado
sono em transe
indiferente ou quieta
me despojo do amor
pra saber quem sou.
foto de phantomblot

06/10/07

Batalha dos Tempos Poema XXIV - Na sua cor


penso em você
como pensa um pintor
diante de sua paleta de cor
se dói meu coração
você é o vermelho
se é no seu corpo que penso
me vem o branco
elemento fogo
é verde minha sede
de lhe ter
numa perspectiva de cor
numa perspectiva linear
você é o azul do meu ar
é ele que está por trás do amarelo sol
causa, princípio assim
sucitamente exposto
sobre meu lençol
num sentido ascencional
enlouqueço
na sombra e na luz
se em você penso.


foto de HenriElske

16/07/07

Batalha dos Tempos Poema XXIII Eu quero...cobrí-la


hoje quero
cobrí-la de pétalas
de jazz
de beijos
de desejos
de seda
quero cobrí-la
de manhã
de mim
de palavras
de luzes
de tempo
vagaroso e lento
o tempo que quero cobrí-la.


Foto de in tulips







Miles Davis & John Coltrane- SO WHAT

Miles no trompete, John no sax.

02/07/07

Batalha dos Tempos Poema XXII - Alma de meu amor


pelos campos
o ruído do meu amor
pelos campos em flores
pousa a doçura da alma quente
do meu amor
a paixão que acende
novo sentir...
um ciclo
assim a dar início
meu alívio
passa o tempo
e eu sempre estou nos campos
a sentir a alma do meu amor.



foto de midnight trucker



Chris Botti - Lisa

Desabafo XIX


ME DEIXEM EM PAZ
*
*
*
durante muito tempo aceitei as pessoas como eram,
durante muito tempo eu não disse; NÃO
durante muito tempo fui disponível
tão disponível que cheguei a esquecer os meus gostos e minhas vontades
durante muito tempo não pensei em mim
durante muito tempo cuidei
cuidei que a vida de outros estivesse sempre bem
durante muito tempo ouvi todos
durante muito tempo atendi a todos
durante muito tempo só fiz para os outros
*
*
Esse Tempo acabou.
porque durante muito tempo vivi tanto para os outros
que esqueci que eu existia, quem eu era, o que eu queria
e agora
é chegado o meu tempo
agora penso em mim
vivo pra mim
agora amo
um amor que incomoda
porque me ausenta .............
Mas é meu
e não interessa a ninguém.
*
*
*
Deixem-me em paz
Deixem-me com meu amor
Com minhas palavras
Porque quero viver
O que escolhi viver...
Me deixem em paz!.
foto de Kallen







Ana Carolina - Sinais de Fogo